Exposição inédita apresenta acervo particular de Emanoel Araújo em Campos do Jordão

Mostra "Rota da Consciência" fica em cartaz no CARDE até maio de 2026 e destaca a força da arte e da cultura afro-brasileira.


Pela primeira vez, parte do acervo particular de Emanoel Araújo pode ser conhecida pelo público na exposição "Rota da Consciência", em cartaz no CARDE Museu, em Campos do Jordão (SP), até maio de 2026. A coleção inédita, adquirida pela Fundação Lia Maria Aguiar em 2023, reúne peças raras e preserva a integridade do conjunto, o que a torna uma das mais relevantes do artista, reconhecido também como curador, colecionador e museólogo.

Além de ocupar diferentes salas do museu, o acervo conta com um espaço exclusivo, projetado especialmente para abrigar a coleção de Emanoel Araújo, considerada a maior dedicada à arte e à cultura afro-brasileira no país. A proposta da exposição evidencia a riqueza cultural, a herança africana e a influência da arte negra na formação da identidade brasileira.

Ao longo do percurso, o visitante compreende a conexão da cultura africana com datas marcantes do calendário nacional, como o Carnaval e a Abolição da Escravatura. Obras de artistas brasileiros como Heitor dos Prazeres, Estevão Silva, Artur e João Timotheo da Costa, Agnaldo, Maria Auxiliadora, Manoel Messias e Mário Cravo integram a mostra, ao lado de nomes estrangeiros que dialogaram intensamente com a cultura negra, como Carybé e Pierre Verger.

Entre os destaques estão as joias de crioulas, produzidas entre a metade do século XVIII e o final do século XIX e reconhecidas como patrimônio cultural da Bahia. Consideradas uma das primeiras manifestações artísticas do período colonial, as peças simbolizam poder, proteção, resistência e sincretismo religioso, com referências do islamismo, do catolicismo e das religiões de matriz africana. Para a exposição, foi produzido um ensaio fotográfico inédito da cantora e compositora Alaíde Costa usando as joias, com registros do fotógrafo Walter Firmo.

No campo das artes plásticas, a exposição apresenta a evolução da representação do negro no Brasil desde o século XVI. Em um primeiro momento, as obras mostram personagens negros retratados de forma figurativa e decorativa, como na pintura "Vendedor de Pássaros", de Oswaldo Teixeira, exposta na sala Paris dos Trópicos. Esse período se estende até a década de 1940.

Em outro momento de grande representatividade, a mostra destaca os negros retratados por artistas negros. Na primeira metade do século XX, nomes como Heitor dos Prazeres e Maria Auxiliadora passaram a retratar o cotidiano e a brasilidade da população negra inserida na sociedade. Segundo a pesquisadora de cultura brasileira Liliu Castelo Branco, esses artistas mostravam cenas do dia a dia, como festas, colheitas e o trem passando, símbolos de liberdade e pertencimento. No caso de Heitor dos Prazeres, os sapatos detalhados nas pinturas representam a condição de pessoas libertas, já que escravizados não podiam usar calçados.

A exposição também dedica espaço ao sincretismo religioso, retratando a fusão entre religiões africanas, o catolicismo e o islamismo, influenciado pela presença de muçulmanos entre os africanos escravizados levados à Bahia.

Para o idealizador do projeto e diretor-executivo do CARDE, Luiz Goshima, a curadoria buscou qualidade e profundidade histórica. "Fizemos o CARDE com muito cuidado, tanto na informação compartilhada quanto na contextualização das obras. A curadoria foi meticulosa e sempre guiada por uma visão democrática e inclusiva, valorizando os verdadeiros personagens da história do nosso país", afirma.