Nas análises sobre as eleições de 2026, costuma-se dar destaque às candidaturas majoritárias, às alianças nacionais e aos humores do eleitorado. No entanto, um fator técnico, muitas vezes relegado a segundo plano, pode ser decisivo para o resultado final do pleito: o número de vagas disponíveis em cada unidade da Federação para a Câmara dos Deputados.
Longe de ser um detalhe burocrático, essa informação é central para o planejamento eleitoral de partidos e candidatos. Ela determina o tamanho do desafio a ser enfrentado nas urnas e ajuda a explicar por que algumas disputas são mais concentradas, enquanto outras se mostram fragmentadas e altamente competitivas.
Como funciona o sistema proporcional
As regras aqui tratadas aplicam-se às eleições proporcionais, responsáveis pela composição das Câmaras Municipais, das Assembleias Legislativas e da Câmara Federal. Diferentemente do sistema majoritário, o objetivo principal não é eleger indivíduos isoladamente, mas definir quais partidos ocuparão as cadeiras disponíveis na legislatura seguinte.
O ponto de partida desse processo é o total de votos válidos (VV) apurados. É a partir dele que se estabelece a relação entre votação e representação política.
O quociente eleitoral em números
Do total de votos válidos deriva o chamado quociente eleitoral (QE), que pode ser entendido como o percentual mínimo de votos necessário para que um partido conquiste ao menos uma vaga na bancada federal.
A lógica é simples: quanto maior o número de cadeiras em disputa em determinado estado, menor será esse percentual. Por outro lado, quanto menor a bancada, maior é a fatia do eleitorado exigida para alcançar representação.
Vagas na Câmara Federal e quociente eleitoral
Unidade federativa
Vagas
QE (% dos VV)
MT, TO, SE, RN, AP, RR, AC, DF, RO, AM, MS
8
12,50
AL
9
11,11
PI, ES
10
10,00
PB
12
8,33
SC
16
6,25
PA
17
5,88
MA
18
5,56
CE
22
4,54
PE
25
4,00
PR
30
3,33
RS
31
3,23
BA
39
2,56
RJ
46
2,17
MG
53
1,89
SP
70
1,43
Quadro: Distribuição das vagas da Câmara dos Deputados e respectivos quocientes eleitorais.
O impacto político do quociente
Os números mostram com clareza: à medida que o número de vagas aumenta, o quociente eleitoral diminui. Nos estados com bancadas menores, os partidos precisam conquistar uma parcela proporcionalmente muito maior dos votos para eleger um deputado federal.
Nessas unidades federativas, onde o QE é elevado e o eleitorado é mais restrito, a tendência é de forte concentração: poucos partidos conseguem atingir a votação mínima necessária para ocupar as vagas disponíveis. Como consequência, também são raros os candidatos que alcançam votações equivalentes a 10% ou 20% do QE, percentuais exigidos nas etapas seguintes do cálculo do quociente partidário e da distribuição das sobras.
Já nos estados com grandes bancadas, o cenário se inverte. O QE mais baixo favorece maior diversidade partidária e amplia as possibilidades de representação, tornando a disputa mais fragmentada e imprevisível.
Por que isso importa em 2026
Compreender essa engrenagem é fundamental para interpretar o jogo eleitoral que se desenha para 2026. Estratégias de campanha, formação de chapas, distribuição de recursos e até a viabilidade de candidaturas dependem diretamente dessa matemática.
Como sustento no livro 2026: As cartas já estão na mesa, ignorar a lógica do sistema proporcional é confundir desempenho eleitoral com sucesso político. Em um cenário cada vez mais competitivo, conhecer as regras não é vantagem, é condição básica para disputar o poder.
Para quem deseja aprofundar-se nos aspectos técnicos das eleições proporcionais, o livro Eleição tem Lógica detalha de forma acessível os cálculos do quociente eleitoral, do quociente partidário e da distribuição das vagas.