A Câmara Municipal instalou nesta quarta-feira (19) uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar denúncias contra o vice-prefeito Rafael Goffi (Republicanos) e a vereadora Ana Paula Tavares de Oliveira Goffi. O casal é acusado de contratar disparos em massa de conteúdos caluniosos contra o prefeito Ricardo Piorino (PL), o presidente da Câmara e outros vereadores.
A denúncia foi protocolada pelo jornalista Alexandre Pereira Costa, secretário de comunicação da Prefeitura, e subscrita por seis vereadores. Durante a sessão ordinária, o vereador Felipe César Filho solicitou a leitura integral do documento.
A origem da denúncia
De acordo com o documento apresentado, no dia 6 de fevereiro de 2026, Alexandre Pereira Costa recebeu uma ligação do advogado Isael Domingues informando que uma pessoa tentava contato urgente com o prefeito sem sucesso. O indivíduo, posteriormente identificado como Tairon Henrique da Silva, procurou o escritório do advogado relatando a necessidade de tratar sobre um "serviço contratado".
Após entendimentos, foi agendada reunião para o mesmo dia, às 20h30, no gabinete do prefeito. Participaram o denunciante, o prefeito Ricardo Piolino e Tairon Henrique da Silva.
Reunião no Shopping Iguatemi
Segundo o relato de Tairon anexado à denúncia, no dia 4 de fevereiro de 2026, por volta das 17h, ocorreu um encontro no Shopping Iguatemi, em São Paulo, com duração de aproximadamente seis horas. Participaram Tairon Henrique da Silva, o vice-prefeito Rafael Goff, a vereadora Ana Paula Goffi e Clayton Serafim, identificado como assessor do casal.
Conforme a denúncia, a conversa girou em torno da contratação de serviços de disparo em massa e divulgação de conteúdo para atingir os seguintes objetivos: manchar a imagem de autoridades municipais, denegrir o prefeito e o presidente da Câmara, comprometer vereadores específicos e promover a imagem da vereadora Ana Paula Goffi.
Conteúdos e acusações
As informações que seriam divulgadas incluíam suposta distribuição de medicamentos ilegais pelo presidente da Câmara, suposta compra e venda irregular de apartamento pelo prefeito e possíveis casos extraconjugais de vereadores.
Segundo Tairon, ficou explícito durante a conversa que o objetivo era "eliminar, tirar do cargo, o prefeito e o presidente da Câmaraaqualquer custo", para que fossem sucedidos pelo casal Goff.
O pagamento pelos serviços teria duas modalidades: valor monetário e contratos futuros na administração pública, tanto no Executivo quanto no Legislativo.
Provas apresentadas
A denúncia anexa evidências que incluem troca de mensagens via WhatsApp entre Tairon e o vice-prefeito Rafael Goffi, mensagens com Clayton Serafim e links de conteúdos para divulgação. Segundo o documento, o casal teria mencionado acesso a informações do CAD Único (cadastro de beneficiários de programas sociais) através de funcionária da Prefeitura. Tairon declarou que, ao perceber a falta de material concreto, os contratantes "estavam partindo para a criação de fake news".
Fundamento legal
A denúncia foi fundamentada no Decreto-Lei nº 201, de 27 de fevereiro de 1967, que trata de responsabilidade de prefeitos e vereadores, e na Lei Orgânica do Município. As condutas atribuídas ao casal caracterizariam quebra de decoro no exercício do mandato, desestabilização institucional, abuso de poder político e práticas ilícitas.
Composição da CEI
Por meio de sorteio público realizado durante a sessão, foram escolhidos cinco vereadores para compor a comissão: Everton Schinach (presidente), Gilson Nagrini (PL), Norberto Moraes (PP), Felipe Guimarães (Podemos) e Carlos Moura Magrão (PSD).
A denúncia foi subscrita por seis vereadores: Everton Schinach, Marco Maior, Gari Abençoado, Felipe César Filho, Felipe Guimarães e Carlos Moura Magrão.
Questionamentos sobre o processo
Durante a sessão, o vereador Norberto Moraes (PP), sorteado para integrar a CEI, questionou a ausência de acesso prévio ao documento por parte de todos os parlamentares. "Pelo princípio da isonomia, eu deveria ter tido conhecimento. Alguns vereadores tiveram acesso e eu fui pego de surpresa", declarou.
Nobertinho também apontou que o documento original solicitava a instauração de comissão processante, mas foi criada uma CEI. A presidência respondeu que a decisão foi tomada após análise do departamento jurídico da Casa.
Defesa da vereadora
Em pronunciamentopessoal, a vereadora Ana Paula Goffi defendeu-se das acusações. "Nesta denúncia não há uma única prova concreta contra mim. O que há aqui é narrativa, e narrativa não substitui prova", afirmou.
A parlamentar destacou que a denúncia foi apresentada pelo secretário de comunicação do prefeito e subscrita por seis vereadores. "A população precisa saber como as coisas acontecem. Vivemos um forte embate político. Tenho sido firme na minha fiscalização e votado com independência", disse.
Ana Paula Goffi (União) defendeu que divergência política não é infração e que fiscalização não é desestabilização. "Recebo essa CEI com respeito e tranquilidade. A CEI é uma ferramenta democrática. Quem trabalha com a verdade não tem medo da investigação", declarou.
Próximos passos
A Comissão Especial de Inquérito deverá realizar apuração detalhada dos fatos, oitiva de testemunhas, coleta de provas documentais, análise das conversas do WhatsApp e notificação dos denunciados para apresentação de defesa.
Caso seja comprovada a infração político-administrativa, as sanções previstas incluem a cassação dos mandatos do vice-prefeito Rafael Goffi Moreira e da vereadora Ana Paula Tavares de Oliveira Goffi. Não há prazo definido para conclusão dos trabalhos.
Contexto político
O episódio expõe as tensões políticas que marcam a atual gestão em Pindamonhangaba. De um lado, o Executivo municipal, liderado pelo prefeito Ricardo Piorino (PL), e vereadores alinhados ao governo. De outro, a vereadora Ana Paula Goff, que tem assumido postura crítica e independente em votações estratégicas.
A próxima sessão ordinária da Câmara Municipal está marcada para 24 de fevereiro, às 17h.
A reportagem tentou contato com o vice-prefeito Rafael Goff Moreira e com Clayton Serafim, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.